A gasolina vai ficar mais cara ainda este ano, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Em entrevista ao G1,
Mantega, que também é presidente do Conselho de Administração da
Petrobras, disse também que o governo decidiu “sacrificar” o chamado
“superávit primário” – que é a economia feita para pagar juros da dívida
pública – em prol de gastos com investimentos, saúde e educação.
“Quem
resolve o preço da gasolina é a Petrobras. Temos uma certa regularidade.
Nos últimos anos, sempre teve aumento. Um ou dois. É um setor
privilegiado. A maioria dos segmentos teve reajuste de preços uma vez
por ano, e não duas vezes por ano. Ano passado [a gasolina] teve dois
aumentos. Então, esse ano não será diferente. Vai ter aumento. Ano
passado teve aumento em novembro. Quando houver a decisão, haverá um
aumento. Não cabe a mim decidir isso”, disse Mantega ao G1.
No ano passado, houve dois reajustes nos preços da gasolina. O primeiro aconteceu em janeiro, quando a Petrobras reajustou
o diesel em 5,4% e a gasolina, em 6,6%. O último reajuste aconteceu no
fim de novembro de 2013 – momento no qual a Petrobras anunciou que os
preços da gasolina e do diesel foram reajustados nas refinarias, sendo
que a alta foi de 4% para a gasolina e de 8% para o diesel.
Meta fiscal
Na mesma semana em que o Banco Central
informou que o superávit primário ficou em apenas R$ 10,2 bilhões nos
primeiros oito meses do ano – o pior resultado da história -, Mantega
afirmou que o governo decidiu sacrificar o esforço fiscal deste ano em
“prol dos investimentos, da saúde e da educação”.
“Não tem
desperdício. O que temos é um gasto importante para a população. Temos
investimento, infraestrutura, e a área social, a educação e o Pronatec. A
educação está melhorando, a população jovem está saindo com mais
educação para o mercado de trabalho, vai ter salários melhores”,
declarou.
O ministro
não garantiu, também, que a meta de superávit primário do setor público
neste ano, de R$ 99 bilhões, ou 1,9% do PIB, será atingida. No mercado
financeiro, a descrença é geral na obtenção do objetivo fiscal de 2014.
“Estamos
fazendo um esforço. É difícil. Mais difícil do que no ano passado.
Porém, temos de esperar para ver. Estamos fazendo o esforço máximo, mas
sem abrir mão de investimentos. O investimento do governo vai atingir o
seu maior patamar em 2014. A gente vai trabalhar para fazer o melhor
primário possível”, afirmou ele.
Dólar pressionado
Sobre o dólar, que registrou em setembro a
maior alta em três anos, fechando o mês passado em R$ 2,44, Mantega
declarou que a pressão acontece por conta da retirada dos estímulos na
economia norte-americana e disse que não há teto para a cotação do
dólar, pois o câmbio, segundo ele, é flutuante. “Não trabalhamos com
teto nem com piso”, disse.
De acordo
com o ministro, haverá uma elevação do juro básico americano em 2015, e
os mercados já estão antecipando essa alta. “Isso está sendo anunciado e
o mercado já se movimenta, antecipa essa situação. O dólar se valorizou
em relação a todas as moedas do mundo. É normal. No Brasil, como temos
um mercado futuro mais líquido, aqui o dólar se movimenta mais do que
outros mercados. No mercado de derivativos, é fácil fazer uma aposta na
valorização do dólar. Em outros países, não é possível, tem de trabalhar
no spot [mercado a vista]“, declarou ele.
O ministro
da Fazenda afastou a possibilidade de o governo retirar o Imposto Sobre
Operações Financeiras (IOF) no mercado de derivativos, instituído em
2011, e declarou que também não pensa em reduzir o tributo para
empréstimos buscados no exterior com prazo inferior a seis meses – duas
medidas que, teoricamente, poderiam tirar um pouco a pressão de alta do
dólar. “Não há previsão de tirar esse IOF [empréstimos externos] também
em função da arrecadação. Ia ter uma perda de arrecadação que, neste
momento, não é possível. Mas, no futuro, isso será possível”,
acrescentou.
Taxa de juros e inflação
Sobre a definição da taxa básica de juros
para conter as pressões inflacionárias, tarefa que cabe ao Banco
Central, o ministro da Fazenda se disse a favor do “gradualismo”, ou
seja, sem choques, que são altas fortes da taxa básica da economia.
“Defendo o
gradualismo porque eu vi algumas propostas preocupantes de levar a
inflação para o centro da meta rapidamente. Como faz isso? Chutando o
juro lá para cima como era no passado. Voltando juro real [após o
abatimento da inflação prevista para os próximos doze meses] de 15% ao
ano. Isso significa [juro] nominal de 25%, 20% ao ano. Acho que isso
seria muito ruim para a economia. Sou a favor do gradualismo, mas
elevamos juros quando foi necessário”, disse ele, acrescentando que, em
sua visão, o juro básico já subiu. “Agora não precisa subir porque já
está alto”, opinou.
Mantega
disse ainda que a inflação ficou “sob controle” nos últimos anos, embora
tenha oscilado ao redor de 6% – distante, portanto, da meta central de
4,5% estipulada pelo governo federal.
“A seca
pressionou [a inflação]. Estamos com seca há dois ou três anos. Não
deveremos ter no próximo ano. Não é possível que se repita esse
fenômeno”, disse. Segundo ele, as chamadas “commodities” (produtos
básicos com cotação internacional, como minério de ferro, alimentos e
petróleo) estão caindo e isso deve ter impacto nos preços no futuro.
“A regra é
que tem de buscar o centro da meta [de 4,5%], desde que não tenha
choque de oferta, como aconteceu no mercado internacional, que eleva os
preços. Tivemos uma pressão da seca que levou a um aumento do preço da
energia elétrica de 0,4 ponto percentual a mais no IPCA. Nos Estados
Unidos, eles tiram energia e alimentos para calcular a inflação. Se
tirarmos energia e alimentos aqui, a inflação iria estar no centro da
meta [de 4,5%]“, disse Mantega.
Crescimento do PIB
Guido Mantega disse
ainda que indicadores mostram que a economia está crescendo mais a
partir de julho, e que a previsão do último relatório de receitas e
despesas do orçamento, de uma alta de 0,9% para o Produto Interno Bruto
(PIB) neste ano, é possível. O mercado financeiro, porém, prevê um
crescimento de apenas 0,29% para este ano.
“Temos
indicadores de que a economia a partir de julho está crescendo mais. Em
julho, produção industrial cresceu, investimento cresceu. Agosto não
saiu ainda. Eu acho que a produção industrial cresceu em agosto também.
Temos dados que vão nos dizendo que a economia está em uma fase de
crescimento. O crédito está voltando agora bem gradualmente. Também vai
melhorar”, disse ele.
O ministro
disse que é “difícil” fazer previsão em um cenário com muita
volatilidade, como atualmente. Segundo ele, a seca impactou o
crescimento mais fortemente no primeiro semestre. “Estamos em
recuperação e o segundo semestre será melhor. Previsão é de 0,9%. Pode
mudar até o fim do ano. Esse último trimestre certamente a economia vai
crescer mais. Dá para chegar no 0,9%”, concluiu.
Fonte: G1
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